Ontem deparei-me com um posto no FB cujo teor reza assim: «Alerta aos Pais - Quando você vai buscar seu filho na escola e estaciona o carro em local proibido ou em fila dupla, você está ensinando que as leis não importam, que o que vale mesmo é o seu conforto, mesmo que atrapalhe dezenas de pessoas! - Ensine pelo exemplo!»Simples e directo! Partilhei, claro, até porque conheço bem esse flagelo diário, em dose dupla: porque moro a 18 kms da escoa da minha filha de 12 anos, e não existindo oferta adequada de transportes públicos, vou levá-la e buscá-la à escola e todos os dias me deparo com o entupimento causado pelo carros em fila dupla, apesar de os estacionamentos (que até são bastantes) estarem vazios, em ambos os lados da rua fronteira ao edifício escolar. Outros param os carros em cima do estacionamento, mas no sentido da marcha, ocupando 3 lugares em espinha, pelo menos, impedindo o estacionamento pelos condutores que pretendem usufruir desses lugares,
Procuro sempre estacionar, ainda que por menos de um minuto, num dos lugares previstos para o efeito, e, nessa impossibilidade, estaciono noutro local e vou a pé.
Mas o que está em causa em tudo isto, afinal, é a nossa posição sobre as regras e a permissividade com que as ignoramos ou desrespeitamos sempre que é o nosso conforto ou as nossas prioridades que estão em jogo, e corremos a atirar pedras a quem as desrespeita sempre que somos nós os prejudicados por tais condutas- E tudo isto sem olharmos para o nosso próprio exemplo! Não se trata apenas da entrada e saída na escola, mas de tantas outras coisas no nosso dia a dia: estacionar nos lugares reservados para deficientes ou serviços de emergência, em cima dos passeios ou portas, impedindo a circulação de pessoas com deficiência ou carrinhos de bebé, só para continuar no tema da circulação e trânsito, por exemplo: em nossa defesa, argumentamos que «não demoro nada»,«é só um bocadinho», «é só uma vez», etc.
Deixem-me explicar melhor: pessoalmente, adoro regras, entendo que as normas
são a estrutura que permite a vida em sociedade (e como possuo um lado capricorniano muito forte, estrutura e disciplina são conceitos que me são muito queridos), que tornam possível a coexistência; são elas que nos dão segurança, limites, confiança e estabilidade, entre outros benefícios. Ninguém pode estar acima delas, por muito moral, recto, espiritual ou bem intencionado que seja. Elas existem não por qualquer capricho, mas porque a humanidade delas necessita para disciplinar a vida social, para além dos conceitos subjectivos dos princípios morais ou dos costumes e tradições.
No momento em que descobrimos o Outro e saímos de nós, surgiu a necessidade de comunicar, colaborar e definir limites, tão antigos como o primeiro relacionamento humano.
E. com elas, surgiu também, de forma irreprimível, o laxismo, a vontade de dobrar ou quebrar as regras, de nos subtrairmos a elas, embora reclamando-as para os outros. Uma dinâmica inevitável, talvez até necessária.
Mas. afinal, aquilo de que nos orgulhamos, enquanto seres humanos, é da nossa inteligência, da nossa capacidade de entendimento, de fazer escolhas, de observarmos e tirarmos conclusões. Ou seja, não obedecemos ás regras por estarmos condicionados por elas, mas por opção, a fim de podermos viver em sociedade.
Então essa mesma capacidade não devia contribuir para um maior respeito e cumprimento destas normas por nós mesmos? E com que autoridade ou moralidade podemos ilibar-nos e fechar os olhos às nossas prevaricações diárias, minorando quaisquer prejuízos das mesmas, e levantamos o dedo acusador aos outros quando assumem exactamente o mesmo comportamento, mas somos nós os prejudicados? A mesma moralidade com que apontamos o dedo aos políticos, detentores do poder económico ou outros, quando também eles infringiram as regras para satisfazerem os seus caprichos ou interesses? E será que não vemos que, independentemente da repercussão ou alcance dos danos em causa, a atitude, o laxismo, a irresponsabilidade é exactamente a mesma? Aquela permissividade que ensinamos aos nossos filhos e que cultivamos diariamente no trânsito, na empresa ou local de trabalho, nas declarações fiscais, etc., etc.. é, afinal, a responsável e causa directa da existência dos grandes senhores da corrupção e dos favores pessoais, dos desvios e fraudes, etc.: afinal, a educação é o exemplo que damos, não aquilo que apregoamos.Enquanto não entendermos que somos responsáveis por todos os danos e aflições, aquilo que denominamos o mal do mundo, dissociando-nos do mesmo, como se lhe fossemos alheios, não conseguiremos construir uma sociedade mais sã e livre; acredito na responsabilidade, por isso sei que eu também sou responsável pela corrupção, pelos desvios, pela mentira. pela guerra e pelo mal. Porque eu faço parte da humanidade, eu sou o outro. Só quando assumirmos e aceitarmos esta responsabilidade colectiva e global, quando nos inspirarmos para mudarmos apenas nós, dando o exemplo para os nosso filhos e para os outros seremos portadores de mudança para o mundo.
E sim, isso começa no estacionamento na escola, na paragem na passagem de peões, no respeito pelos lugares reservados, na transparência dos comportamentos diários. A bondade vive-se, a rectidão pratica-se. Cada um no seu campo, no seu tempo, passo a passo.

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