Navegando por entre as frases bonitinhas, inspiradoras, feitas, repetidas por vezes até à exaustão, que abundam nas nossas timelines, email, etc., somos por vezes (muitas vezes?) assaltados por sentimentos de déjá vu, para não dizer mesmo de uma superficialidade cansativa, ainda que inócua. E que dizer dos clichés, frases do dia, inspirações, pensamentos... uma fonte inesgotável d e pensamentos positivos e inspiradores para o nosso dia; curiosamente, cada um de nós (ou tendencialmente, muitos de nós) não se contém e adere, juntando a sua contribuição a esta fonte de positividade espiritual ou mais ou menos empírica, partilhando, copiando ou escrevendo mais uma frase, conselho ou saudação!
Lindo de se ver e ler!
Mas, inevitavelmente, lá chega o momento (que, quiçá, se torna cada vez mais premente e frequente) em que tanta doçura e positividade nos surge como superficial, descontextualizada, e, sobretudo, desadaptada!

Porque, desde logo, como não somos perfeitos nem santos, mas seres humanos, a vivermos uma existência material, nos deparamos com essas imperfeições, sombras, emoções negativas ou desqualificadas, porque elas fazem tanto parte de nós como os belos sentimentos e pensamentos positivos que nos bombardeiam; por outro, porque tanta frase e conselho nada nos indica de prático e consistente, antes reverberando uma vacuidade (inócua, na maioria) irritante, deixando-nos no seu rasto com uma sensação exactamente oposta á pretendida pela boa vontade dos seus autores: a de que somos incapazes, culpados, imperfeitos (!) menos espirituais ou menos qualquer coisa do que os queridos e ilustrados autores ou partilhadores destas sentenças e revelações( Atenção que neles me incluo!).
Quem de entre nós não suspirou ou não teve vontade de ripostar a alguma destas belas inspirações?
Sim, porque o mundo não é perfeito, e porque ninguém vive nele num contínuo estado de exaltação e maravilhamento: vivemos nele para abraçarmos a nossa sombra, os nosso receios e lados negros, as nossas fases lunares, os desalentos e erros.
Do que precisamos muitas vezes é de sentirmos que somos amados e compreendidos, não pelas virtudes, mas antes pelos nossos defeitos e pecados; pela materialidade que aqui viemos experimentar conscientemente, e não negando-a ou rejeitando-a diariamente num inútil exercício de elevação ou superioridade.
Do que precisamos também é de nos revermos naqueles que nos acompanham, guiam ou «orientam», de forma prática, real, autêntica, e sem nos sentirmos inferiores, dependentes ou comparativa e desesperadamente incapazes.

O que precisamos é de integrar, aceitar, abraçar a nossa imperfeição como sendo maravilhosamente ajustada à nossa missão, ao nosso caminho, ao propósito de vida e às lições que viemos trabalhar.
O nosso objectivo não é tornarmo-nos seres transcendentais nesta vida, pois transcendental é a nossa natureza: aqui, viemos experimentar e conhecer os condicionalismos da matéria, viemos criar e ser criados, tornando-nos criadores! Abdicámos da perfeição para conhecermos a imperfeição, condição única,
sine qua non para a existência material.
Sejamos, pois, perfeitos na nossa unicidade e singularidade, descobrindo novas formas de nos amarmos integralmente (amando a nossa preguiça, a nossa fraqueza, a nossa gula, a impaciência, e todas essas sombras que nos alimentam), pois nunca conseguiremos amar verdadeiramente os outros, e muito menos conhecer uma réstea que seja do verdadeiro amor incondicional enquanto não formos capazes de o fazer.