TERAPIA
TRANSPESSOAL: A PSICOLOGIA DO NOVO MILÉNIO
A psicologia humanista veio enfatizar a
experiência consciente do ser humano na sua totalidade, focando a capacidade
criativa do indivíduo, diferenciando-se das posições anteriores até aqui
vigentes por passar a focar-se nas pessoas sãs ao invés das pessoas perturbadas
ou psicóticas; é partindo do postulado (segundo Maslow) segundo o qual à medida
que cada necessidade básica é satisfeita, somos motivados para o nível seguinte
ou superior de necessidade ou desejo.
Essa escala de necessidades revesta
sua base com as necessidades fisiológicas básicas de alimentação, água, etc,
para culminar no pico que consagra a autorrealização.
Pode-se simplisticamente afirmar
também que, ao satisfazer as suas necessidades básicas, o homem passa a dirigir
a sua atenção para o que está à sua volta. E para o alto, para fora dele mesmo.
Desta nova necessidade surge também
este novo olhar sobre a psicologia, implementando novos modelos de
acompanhamento, novas formas de ajudar o ser humano que coloca novas questões e
novos desafios.
A diferença postular que cimenta a
clivagem entre os dois modelos de psicologia – a tradicional e a transpessoal -
assenta na respectiva abordagem: enquanto a primeira estuda a doença, o indivíduo
enfermo, encarado como um «desvio» da normalidade (esta considerada como
saudável na sua conformidade com os padrões mentais), a segunda estuda o homem
são, na sua plenitude, integrando as dimensões das experiências e
comportamentos humanos, destacando a integração da metafísica e da
espiritualidade e reflectindo o novo paradigma social.
Outra diferença importante prende-se
com o facto de a psicologia tradicional ser essencialmente material recusando
as experiências exteriores ao estado de vigília consciente, enquanto a nova
psicologia abrange e integra os estados alterados, iluminados e superiores de
consciência.
Procura transcender a natureza humana,
elevando-a ao universo interligado e presente, procurando transcender a redução
materialista no sentido deste novo paradigma reconhecedor e integrador da
espiritualidade e necessidades transcendentais do ser humano – a expansão da
consciência num sentido universal e cósmico, por meio de experiências até aqui
consideradas míticas ou metafísicas.
Ou seja, e em resumo, a terapia
transpessoal propõe-se acompanhar o ser que sofre, dando-lhe a mão e
acompanhando-o nos seus processos de reconhecer a sua sombra, de mergulhar nos
seus mais profundos lagos de traumas, medos ou crenças, de formas amorosa,
livre de julgamentos, e permitindo ao paciente reconhecer-se na sua
singularidade enquanto parte do Todo, aceitando e integrando os diversos
aspectos do seu ser e da sua sombra, numa ligação irreversível com a
Consciência Superior e o Sagrado ou Divino que em todos habita.
Por esta via ela logra demonstra o caráter
relativo da realidade, e identificar a natureza essencial a partir do estado de
consciência cósmica ou transpessoal, da Unidade entendida como a Consciência
Superior, o Divino ou Transcendente.
Permite ao homem revelar o mistério da
limitação do ser na sua manifestação humana, fazendo-o reconhecer a sua
verdadeira não dualidade, graças à superação da aparente separação do homem e
do absoluto.
Na vida prática quotidiana, mostra ao
homem os caminhos e métodos que permitem o acesso ao transpessoal dentro do
"pessoal", por meio da descoberta do "mestre interior".
Oferece assim a todos os que desejam e
praticam os métodos próprios a um desses caminhos, a verdadeira liberdade e
alegria de viver, pelo despertar dos valores inerentes ao ser; a sabedoria
indissociável do amor para todos os seres.
Podemos enfim afirmar que a psicologia
transpessoal é possuidora de um enorme potencial terapêutico, pois permite
transformar as emoções (potencialmente avassaladoras ou destruidoras) como o
ódio, a possessividade, o orgulho, o crime e a inveja, em harmonia e paz para
cada ser humano e para toda a humanidade.
A terapia ou psicologia transpessoal observa
particularmente o estado transpessoal da consciência, entendido como aquilo que
subsiste, para além do fenômeno ou aparência da pessoa. Ou seja, transpessoal é
o que fica por trás das máscaras da pessoa, dos seus condicionamentos, crenças
implantadas e formatações ambientais.
A ponte que a análise e o trabalho
transpessoal estabelecem de forma inovadora e integrada entre o Ser e a
Espiritualidade – desprovida de conotações religiosas ou enquadramentos sociais
culturalmente localizados – é a grande diferença na abordagem desta psicologia
futura face aos métodos anteriores até aqui aceites pela comunidade científica.
Para esse acompanhamento de alma o
terapeuta socorre-se de um conjunto de técnicas de relaxamento, perdão,
integração, etc., destacando-se entre elas a prática da meditação como a
ferramenta por excelência de um novo equilíbrio e bem-estar intuído e vivido de
forma plena e consciente.
Outra ferramenta essencial é a
observação: do próprio terapeuta enquanto amorosamente acompanha o paciente na
identificação dos seus processos e condicionamentos e do paciente enquanto
testemunha esses condicionamentos e os identifica, libertando-se da respetiva
«tirania». A cura é alcançada de forma consciente e responsável pela
identificação dos processos traumáticos, condicionados, resultantes de
preconceitos, crenças, ou registos automatizados, e pela auto responsabilização
do paciente nesse desapego e libertação.
É neste processo e para ele que o
papel do terapeuta, como ser regido pela integridade, retidão, impecabilidade e
sensibilidade amorosas se assume como o pilar do paciente no processo
observativo que o há-de conduzir à libertação e a um Ser Maior.
Um dos momentos fulcrais da terapia
dá-se quando se verifica o encontro do paciente com a sua sombra e a sua
aceitação – o dar-se conta é o
mecanismo que surge como momento fulcral do processo terapêutico do ser nesse
caminho de integração.