Toda esta premência e ênfase na Cura pressupõe uma enorme doença que nos corrompe, mina e ataca, que nos corrompe e torna infelizes, sendo a Cura a meta final, o êxtase da felicidade e da remoção de todos os factores de doença que nos assolam, inevitavelmente.
E identificamos facilmente doenças, danos e razões de desequilíbrio em todos os níveis, épocas e manifestações, do plano físico, ao emocional e energético.
E por cada mergulho que damos, por cada passo em frente que trilhamos, descobrimos novos pecados, novos males para erradicar e novos processos para desbravar.
Os terapeutas e curadores (:) ) sentem um grande entusiasmo e alegria pela sua missão, os trabalhadores da luz procuram da mesma forma limpar e auxiliar os outros nesses percursos de libertação, limpeza e... cura, inevitavelmente.
O auxílio, assistência e acompanhamento aos outros são hoje consideradas missões superiores, vocações extraordinárias das nossas almas, e todos queremos contribuir de uma forma ou de outra para esta cura global, do planeta, do universo...

Como terapeuta e guerreira de luz, tenho também sentido esta vocação e esta vontade imensa de me dar ao outro neste serviço e sei que continuarei a fazê-lo, com as minhas ferramentas, intuição e amor.
Mas permitam-me que hoje, só por hoje, questione a Cura, ou mesmo a sua necessidade.
Antes de mais, porque como todos os terapeutas a um dado ponto da sua carreira hão-de ter compreendido, não somos responsáveis por qualquer tipo de cura, a não ser pela nossa própria ( e mesmo essa... no caso de realmente ser necessária; podemos considerar-nos facilitadores, transmissores, canais, ferramentas ao serviço do caminho dos outros, isso sim, servindo com todas as nossas capacidades, entrega e serviço, mas aquele que nos procura traz-nos afinal muito mais a nós do que a ele; e somos nós que, despindo a arrogância, a «sabedoria» e a arte, descobrimos afinal que aqueles pacientes é que nos trouxeram a nós as lições, os reflexos e aprendizagens de que necessitávamos; e que nós a eles apenas lhes passámos ferramentas e luz que eles agora poderão utilizar ou não da forma que entenderem, pois apenas eles são responsáveis pela sua própria Cura (quando ela exista ou seja necessária...)
Para mim, deixou de fazer sentido esta referência obsessiva à Cura - sim, quando nos referimos a ela nos planos do inconsciente, oculto, desenvolvimento pessoal, astrológico, metafísico, etc., etc. - pois deixei de entender os outros (e a mim também!) como doente, desequilibrada, desarmonizada ou fosse o que fosse que necessitasse de cura; afinal, nós somos perfeitos para aquilo que viemos desenvolver, aprender e criar nesta encarnação, nós contemos em nós todas as sementes e respostas, nós somos concebidos para aquilo de que necessitamos. Em vez de Cura, prefiro falar agora de crescimento ou processo, esse mecanismo absolutamente único, pessoal e individual de descoberta dos dons próprios, do caminho desta vida e do entendimento das próprias limitações e obstáculos, tão importantes quanto as qualidades e características.
Assim, deixamos de olhar para quem nos procura como almas em busca da luz que nós, seres especiais lhes podemos dar, para passarmos a olhar para eles como almas mestres que nos trazem novas lições, aprendizagens e com as quais crescemos em simultâneo e amor.
Não promovo cura, mas sou convidada a acompanhar o processo pessoal do meu paciente, facilitando, apoiando, fornecendo as ferramentas e partilhando os meios necessários para que se sinta mais seguro e sereno no seu caminho pessoal.
A cura só ele a pode promover, pois a verdadeira Cura não vem de fora, de qualquer mestre ou terapeuta, de qualquer energia, método ou poder, mas apenas do nosso interior, da nossa vontade de ser cada vez mais fiéis à nossa natureza e de honrarmos cada vez mais a nossa verdade única e intrínseca.
Porque alardarmos esta Cura pressupõe que fomos concebidos imperfeitos, seres quebrados, defeituosos numa impressionante linha de montagem, partidos e inviáveis!
Por isso acredito com cada vez mais convicção que é importante mudarmos a perspectiva e que a forma de apoiar os que nos procuram é ajudando-os a aceitarem-se antes de mais, a amarem-se tal e qual são, a abraçarem a sua perfeita imperfeição, como sendo a única possível para aquilo que se propuseram construir ou aprender nesta vida.
Na verdade, esta fixação na Cura (emocional, energética, espiritual, etc.) tem tido como consequência um aumento de insegurança, de desânimo, de insatisfação e tristeza, pois tornou-se assim um objectivo inalcançável, um mito de perfeição, iluminação e serenidade, resultante de uma Cura tão utópica como irreal: pois ninguém pode ser perfeito nesta dimensão terrena, em que aceitamos entrar e experienciar para o nosso crescimento e aprendizagem; e quando iluminamos uma faceta dita sombria, quando nos perdoamos ou a certos aspectos do nosso passado e presente, descobrimos apenas outro mergulho a dar, outro desafio... a não ser que nos aceitemos integralmente e incondicionalmente.Na verdade, como pretendemos amar os outros se não nos soubermos amar primeiro? Como pretendemos ser úteis aos outros quando deixamos de acreditar em nós ou prescindimos de nos ouvir?
E se, na verdade, deixássemos de nos considerar emissários e portadores de uma qualquer forma de cura, e apenas estivéssemos presentes integralmente para os outros, desresponsabilizando-nos da cura deles e focando-nos antes no nosso próprio processo de harmonia, equilíbrio e aceitação?
Fazendo cada um a sua parte, aceitando a perfeição integral do que é, no momento em que é, a cura deixará de ser necessária, pois eliminamos a razão ou causa que a tornou necessária: o desequilíbrio resultante da crença de que não somos perfeitos ou de que estamos quebrados, de uma forma ou de outra.
(Com isto, sem radicalismos, não estou a advogar que deixem de se tratar, nomeadamente ao nível físico, onde os danos se manifestam nesta dimensão concreta! Esta opinião reporta-se àquilo que é identificado nos meios espirituais como Cura aos níveis energético e espiritual ou emocional.)
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