Esta é uma crença tão difundida que por todo o lado, em qualquer conversa é normal ouvirmos os relatos de queixas e tristezas variadas, seja de amores não correspondidos ou terminados, seja de parentalidades desiludidas... por sua vez,os media e a indústria dos filmes e muita literatura dita romântica propagam também esta imagem do amor sofredor, batalhado, como algo a conquistar e manter, algo externo e ilusivo...
Esquecemos há muito que o Amor não existe verdadeiramente fora de nós, nem é algo que possamos ganhar, adquirir ou merecer por alguma forma, acção ou dependência.
O Amor é a ausência da dor e da tristeza, é a antítese de todo o sofrimento e mágoa.
O Amor não é uma dádiva de alguns seres maravilhosos ou iluminados que ocasionalmente nos enchem com a sua atenção e dedicação, nem é uma obrigação filial ou familiar, não é moeda de troca nem comparação: afinal, somos todos expressão do Amor, a vida é a sua manifestação, Amar é simplesmente respirar, estar consciente e ser a cada momento.
Não se conquista porque simplesmente está dentro de nós, manifestando-se a cada milésima de segundo da nossa existência.
Nada exige, nada controla, nada possui, nada prende, nada pede: simplesmente É!
É o leve bater de asas do nosso coração, por nada mais do que a simples consciência da dádiva da Vida; é o sorriso nos nossos lábios perante a beleza do que nos rodeia.
Não o encontraremos na dependência relacional que criamos com o outro, seja filho ou seja parceiro, nem no elogio ou reconhecimento dos outros, nunca o encontraremos enquanto o procurarmos fora de nós.
Apenas quando olhamos para dentro e reconhecemos essa chama da Vida que nos alimenta dentro do nosso coração seremos capazes de amar verdadeira e incondicionalmente, amar não apenas os que nos são próximos, mas amar a humanidade e os animais, o ambiente e o planeta, nessa compreensão de que somos todos parte do mesmo, todos ligados na teia da Vida, numa sinergia de eco-sistemas amorosamente sustentáveis.Quando queremos prender o outro, quando queremos cobrar do outro, quando exigimos algo do outro, é o nosso Ego a manifestar o sentido de posse, a cobrar, a controlar, motivado pelo medo, pela fuga e pelo sofrimento.
A separação é ilusão da matéria, e é o nosso desafio para voltarmos a ser todos, completos e bastantes.
Amar não é ansiar e sofrer, amar é algo que sustenta a vida, algo que brilha dentro de nós, bastando abrir as portas do nosso coração para que brilhe e se expanda... e quanto mais se expande, mais cresce e mais nos sustenta, sem necessidade de prendermos os outros ao nosso lado ou sob o nosso controlo, sem necessidade de ser reconhecido ou recompensado.
Quando percebermos e conseguirmos ver que o Amor, na sua totalidade, na sua infinitude e imensidade está apenas dentro de cada um de nós, mas assim está em todos, mesmo nos que o não reconhecem, então conseguiremos ver que ele está por todo o lado, presente e activo em cada momento da nossa Vida.
Essa é a porta da compaixão e da alegria de viver.
Isenta de sofrimento e dor? Não, naturalmente não, pois a ilusão da separação que a matéria comporta é feita dessa dualidade e o reconhecimento do Amor não nos torna imunes como uma vacina ou protecção indestrutível; o que nos torna é compassivos, presentes e conscientes, reconhecendo que o sofrimento também ele passará, e que parte da sua força deriva apenas do nosso próprio olhar e expectativas sobre ele e não daquilo que objectivamente achamos que o causou.
Sofro porque alguém me magoou, através de actos ou palavras ofensivas, críticas ou outras; mas a relevância ou dimensão desse sofrimento dependerá afinal da importância que eu atribuir a tais actos ou palavras; da minha capacidade de entender o porquê dos mesmos e até a minha própria responsabilidade por eles, e, eventualmente, da minha capacidade de perdoar tais actos ou palavras ou perdoar-me a mim mesma.
Posso não controlar os actos e decisões dos outros, mas posso sem dúvida controlar e escolher a minha reacção aos mesmos; posso assumir e reclamar a minha própria capacidade de perdoar, aceitar e sobretudo de não me deixar influenciar pelos outros.Quando deixarmos de reagir emocionalmente e utilizarmos a inteligência emocional para reflectirmos sobre os processos reactivos e dolorosos, poderemos começar o nosso próprio processo de cura, de enfrentar os nossos medos (do nosso Ego, esse instrumento de sobrevivência e protecção tão mal compreendido, e que também precisamos aprender a amar) e de nos tornarmos cada vez mais conscientes da nossa essência amorosa e única.
Uma das chaves da felicidade (cliché este que utilizo com amor e consciência, sorrindo sempre interiormente) está nesta nossa saída consciente do esquema Acção-Reacção em que fomos submergidos desde a nossa infância, para não dizer desde o nosso nascimento, e passarmos a reclamar o papel de observadores conscientes dos nossos processos.
Esse é o primeiro passo para reencontrarmos o Amor dentro de nós, e para nos tornarmos mais sãos e conscientes.
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